segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sâo Paulo Railway

Foto: Isabel Muller
curta-metragem de 15 minutos

Contemplado pelo Prêmio Estímulo de 2008, conferido pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, São Paulo Railway conta a história de três adolescentes da cidade de Jundiaí, interior do estado de São Paulo, entediados pela falta do que fazer nas férias, e que resolvem percorrer o caminho da antiga estrada de ferro para chegar à praia, em Santos.

Com direção de Marcelo Muller e fotografia de Maillin Milanés, o filme foi produzido pela Acere FC. em parceria com Ay que rico! Cine, e rodado em três municípios do Estado de São Paulo – Jundiaí, São Paulo e Paranapiacaba.

São Paulo Railway é o nome dado pelo Barão de Mauá à primeira estrada de ferro construída no Brasil, que comunicava o porto de Santos a Jundiaí, permitindo o escoamento da produção cafeeira do interior do estado para o exterior. Nos anos 1940 foi estatizada e passou a chamar-se Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, até que no início da década de 1980 um incêndio destruiu parte do sistema, encerrando o serviço de trens de passageiro que descem a serra.

Hoje, Paranapiacaba tornou-se uma estância turística, mas ainda há trens de carga que continuam indo até o porto de Santos.

A partir deste post, de apresentação do curtametragem, farei um "diário de produção" revelando a trajetória da filmagem por meio de textos e fotos, que pretendo publicar diariamente.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

SPTrans 2010

Taí o vídeo do post anterior. Aquele da sandália de couro de vaca, dos pés esfolados, e do primeiro trabalho como assistente de direção.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Bolha no pé

No dia em que eu estreava a primeira longa caminhada com a sandália ornamentada com couro de vaca (couro sintético, claro) recebi uma ligação da Lívia, ex-coordenadora de produção da Acere. A Janie, assistente de direção, que também conheci na Acere, precisava de uma assistente. Mas como a Lívia também estava produzindo um trabalho nesse fim de semana passou a bola pra mim.

Eu já havia usado a tal sandália em percursos curtos ou em saídas motorizadas. Com o sol que brilhava alto, não me ocorreu outro pisante para caminhada não muito longe de casa.

Eu mal conseguia colocar os dois pés no chão quando aceitei o trabalho, que dele só sabia que era publicidade. Mais tarde, quando liguei pra Janie, soube que era um vídeo institucional para SPTRANS, sobre Expresso Tiradentes, e que gravaríamos nas estações Terminal Sacomã e Estação Mercado, no Parque D. Pedro II, centro de São Paulo.

Só me restava então, escolher os sapatos mais confortáveis do guarda-roupas para a empreitada marcada para às 6h30 da manhã do domingo.

Desse fim de semana de estréias, meu primeiro trabalho como assistente de direção (3º) e a bendita sandalinha, segue abaixo o registro.

















(Janie e seu super megafone digirindo os figurantes, o diretor e o fotógrafo)



















(a equipe)



















(ação figuração!)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Em tempo

Depois de sete meses, hoje me ocorreu que não escrevi nada sobre o “Pioneiras”. Que falha! Então lá vai...

O projeto, idealizado por Ricardo Tacioli, editor dos sites Gafieiras e Rádio Cultura Brasil, tomou forma a partir de uma idéia antiga: criar um grupo de fotografia dedicado ao registro da música brasileira. Reunir fotógrafos, independente da área de atuação, dispostos a irem ao além-palco. O microfone, o instrumento e o tablado que fazem parte do dia-a-dia ficariam no segundo plano na construção desse acervo iconográfico da música brasileira.

Em pouco tempo a turma já contava com o Jefferson Dias – velho parceiro do Gafieiras-, João Correia, Otavio Vale e Renato Nascimento – indicação do Max (Gafieiras); Ricardo Ferreira, Fernando Ângulo e Ernesto Rodrigues. Todos fotógrafos de longa data e com atuações distintas que podem ser conferidas na página quem somos.

Dos encontros surgiram muitas e boas idéias que deram início a lista de temas e personalidades que estariam na mira de nossas câmeras, mas um foi especialmente atrativo. Diante da proximidade do Dia Internacional da Mulher registrar algumas das desbravadoras do meio artístico musical no Brasil era, além de uma homenagem, um resgate de parte da história da música nacional.

Paralelo a definição das artistas e contatos, tínhamos uma questão bastante importante: a exposição. A possibilidade da mostra de fotografia se apresentar fisicamente foi ficando cada vez mais impossível a medida que o Dia Internacional da Mulher se aproximava, pois muitos dos possíveis parceiros que fizemos contato já tinham fechado suas ações. Foi então que surgiu a idéia da mostra digital, em mídias indoor e internet.

A circulação no formato digital matou vários coelhos com um só golpe: milhões de pessoas veriam a mostra, já que nossos principais parceiros eram a TV Minuto e TVO - desenvolvedoras de conteúdo para TVs instaladas nos trens do Metrô e ônibus na cidade de São Paulo, respectivamente-; os custos caíram somente sobre as sessões; a produção e finalização sairia em tempo!

O resultado ainda pode ser conferido na internet: treze personalidades que iniciaram suas carreiras entre as décadas de 1940 e 1960, textos sobre as artistas e sessões fotográficas, uma ilustração lindíssima feita pelo Daniel Almeida e finalizada por Fernando Almeida, além do visual classudo do site.

Ainda hoje, de vez em quando, visito o Pioneiras pra dar uma namorada. Confesso que na primeira semana de circulação da mostra fiz questão de ir a todos os lugares por meio do metrô. Fiquei emocionada quando vi as imagens na pequena TV. Valeu.

Abaixo deixo meu registro (vergonhoso) do grupo, numa reunião de pauta um tantinho etílica! Desculpem-me pela falta de foco!










terça-feira, 16 de junho de 2009

Lembranças do Prestes Maia: Edicena


Edicena é mineira de Montes Claros. Veio a São Paulo atraída por um programa popular de TV que oferecia teste de DNA gratuito. Mãe de três adolescentes chegou sozinha e com apenas trinta reais no bolso. O sonho de comprovar a paternidade de dois de seus filhos nunca se concretizou.

Antes de ocupar o pequeno barraco no terceiro andar do bloco B no edifício Prestes Maia, Edicena já havia passado pelas ruas e albergues paulistanos. No edifício encontrou seu Renê, ambulante que vendia marmitex na Rua 25 de Março, região central de São Paulo, e estavam noivos há um ano.

A mineira com então 39 anos sofria com a Doença de Chagas e não trabalhava; seu Renê e suas marmitas davam conta das despesas.

Conhecemos Edicena ainda no Prestes Maia, mas a entrevista somente aconteceu após a desocupação do edifício. Fomos a sua casa nova: um apartamento pequeno, recém construído pela Prefeitura lá pelas bandas de Itaquera, zona leste da cidade. Lá também estavam alguns de seus antigos vizinhos.

A ex-moradora da maior ocupação da América Latina estava feliz com seu apartamento térreo, adaptado para deficientes físicos. Mas a distância entre o centro da cidade e a nova casa era um problema para os negócios de seu Renê.

Um ano depois da entrevista recebi uma ligação de Edicena, convidando a mim e a equipe para seu casamento com seu Renê.


Foto: Ricardo Tacioli

Dona Edicena ainda no edifício Prestes Maia


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Uma roupa nova

Não me lembro bem porque laranja e preto. O fato é que fizemos o cabeçalho com essas cores, retangular, e sem nenhuma pretensão de sermos uma fonte fidedigna de notícias, apesar do nome. Foi casual, soou bem, então seguimos.

A idéia inicial era dar vazão às tantas coisas que víamos nas ruas, na tv, na internet, enfim, em todo lugar. Escrever pequenas reportagens, algumas histórias e o que mais viesse pela frente.

Como todo começo é de empolgação, a nossa durou uma postagem: o Ricardo atarefado com os frilas, e eu num trabalho que consumia a alma. E foi assim que o Outras Fontes ficou esquecido por quase um ano.

Em 2009, já afastada daquele trabalho, resolvi ativar o Outras Fontes e acho que comecei bem: publiquei alguns textos e criei uma seção “Lembranças do Prestes Maia” para publicar histórias de moradores do edifício ocupado pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), em São Paulo, com o material recolhido (e não publicado) nas incursões ao prédio durante a graduação em Jornalismo.

Pois bem… Após dois meses e algumas postagens solitárias – o Ricardo continua atarefado com os frilas –, resolvi abandonar definitivamente o Outras Fontes. Criei um outro blog, com o mesmo fim, porém dessa vez solo. E assim nasce o Cinturafina.

Outras Fontes continuará na rede por mais algum tempo, ainda não sei por quanto. As postagens de lá já passei pro Cinturafina, com as datas originais de suas publicações.

Oficialmente hoje me despeço do Outras Fontes. Sigo no Cinturafina!

domingo, 14 de junho de 2009

Lembranças do Prestes Maia: Imagens

Foto: Ricardo Tacioli



Foto: Ricardo Tacioli



Foto: Ricardo Tacioli




[*] Publicado originalmente em Outras Fontes em 09 de junho de 2009.


Lembranças do Prestes Maia: João e Maria




Ele é de Alagoas; ela de Jequié na Bahia. O casal que se encontrou aqui em São Paulo veio de Parelheiros, bairro periférico da capital, e ocupava o barraco número 7 do décimo quinto andar do bloco B, no edifício Prestes Maia.

João trabalhava sem carteira assinada, como servente no Mercado Municipal de São Paulo; Maria Cícera cuidava da casa e dos cinco filhos já crescidos. Vivem juntos há oito anos e estavam no prédio desde o dia da ocupação.

[*] Publicado originalmente em Outras Fontes em 09 de junho de 2009.


Lembranças do Prestes Maia: Dona Clarice Barbosa

No pequeno cômodo do terceiro andar do edifício Prestes Maia vivia Dona Clarice Barbosa. De Cafelândia, interior do estado de São Paulo, com então 57 anos, antes de chegar ao Prestes Maia ela vivia numa quitinete alugada na avenida São João, região central da capital paulista.

As diárias como faxineira se tornaram insuficientes para bancar o aluguel culminando na sua mudança para o edifício invadido pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC).

Junto com ela vieram sua mãe, Dona Sebastiana de 79 anos; o sobrinho-neto Marcos, 4 anos ,e sua mãe Isabel, 29, que sofre de uma pequena debilidade mental, e contribui para as despesas com a pequena pensão que recebe do governo.

Quando a conheci fazia apenas 30 dias que ela estava no prédio. Pediu a direção um andar baixo, por conta da mãe, mas não foi atendida. A preferência pelos primeiros andares é dos moradores mais antigos.

Há pouco tempo havia adotado um gatinho para inibir os ratos que circulavam ao apagar das luzes. Ela e a sobrinha dormiam no chão e temiam o ataque das ratazanas, ou uma doença decorrente delas. A cama estava reservada para o garoto e a velha mãe.


















[*] Publicado originalmente em Outras Fontes em 08 de junho de 2009.

Lembranças do Prestes Maia

Havia pouco tempo que o último ato de resistência dos moradores do Edifício Prestes Maia, localizado na região central da cidade de São Paulo e então a maior ocupação vertical da América Latina, tinha chegado às manchetes de jornais quando nos foi passada as primeiras orientações sobre o projeto experimental de jornalismo literário. Naquela semana, 468 famílias foram ameaçadas de despejo, sem nenhuma alternativa de realocação.

Para a conclusão do curso de graduação, bacharelado em Comunicação Social/Jornalismo, deveríamos escrever nosso primeiro livro-reportagem. O passo a passo já era sabido: escolher um tema, definir a metodologia, redigir o projeto, apresentá-lo e botar a mão na massa. Marcamos, então, nossa primeira reunião de grupo. Cada um dos 12 componentes traria sua sugestão para, democraticamente, decidirmos o objeto de nosso estudo, tendo em mente um assunto que nos daria prazer em pesquisar e trabalhar nos próximos nove meses.

Temas como a famosa rua 25 de março, no centro da capital paulista, religiões e Budismo, a Assembléia Legislativa de São Paulo vista por aqueles que trabalham na sua manutenção, e outros que a memória não resgata estavam à mesa junto com o Edifício Prestes Maia ocupado desde 2002 pelo Movimento dos Moradores Sem Teto de São Paulo (MSTC).

Não por unanimidade, mas por maioria, definimos que a história recente do prédio tinha força e muito assunto para se transformar em um livro. Mas qual seria o foco? A busca por mais informações sobre esse tema evidenciou que, apesar de bastante citado, o edifício era reconhecido como a maior ocupação vertical da América Latina, mas as histórias das pessoas que nele moravam eram meros acessórios. Exceções concedidas aos líderes do movimento e aos idealizadores da biblioteca fundada no prédio a partir de doações e de livros coletados do lixo. Estava aí a nossa linha editorial.

Quem são essas pessoas que habitam um edifício abandonado, sem luz ou água encanada, povoado por ratos e baratas em meio a paredes úmidas, dividindo suas intimidades e compartilhando suas necessidades de forma precária e insalubre?

Essas pessoas vieram de vários lugares: da região periférica da cidade de São Paulo até do distante agreste nordestino. Algumas, inclusive, de países vizinhos, como a Bolívia. O principal motivo desta migração é a busca por trabalho, mas também o desejo de encontrar familiares e procura de tratamentos de saúde.

Cansados do entra-e-sai de jornalistas, videomakers, fotógrafos, pesquisadores e curiosos, alguns residentes foram contra nossa permanência no edifício. Mas novamente a maioria prevaleceu e nossa presença foi aceita numa assembléia de moradores que expôs os objetivos de nosso trabalho apresentado alguns dias antes a duas dirigentes do prédio.

Os meses que seguiram foram de incursões semanais aos dois blocos do edifício, um de 22 andares e outro de dez. Conversamos, entrevistamos e fotografamos sempre em busca de histórias de moradores que, ao mesmo tempo, representassem a de outros tantos personagens do prédio que não caberiam dentro do projeto pelo tempo e espaço disponíveis.

Apesar de terem sido aprovadas em assembléia, nossas visitas muitas vezes foram hostilizadas por moradores que nos consideravam curiosos da precariedade e miséria em que se encontravam. Mas, em tantas outras oportunidades, também fomos convidados a entrar em suas casas e partilhar da refeição. Ora uma narração intrigante, ora uma engraçada, as histórias variavam sempre entre a tristeza do passado e o temor e incerteza do futuro. Registramos em voz alta a resistência de alguns desses sentimentos.

Trajetórias de vida de moradores como a do boliviano Mário, ex-sapateiro e atualmente piloteiro de uma confecção no Bom Retiro: veio pela primeira vez ao Brasil para passar férias e ficou de vez. Dois anos depois, voltou à Bolívia, mas para trazer toda a família para São Paulo. Dona Edicena, que saiu de Minas Gerais atraída por um programa de TV que oferecia teste de DNA. Chegou à capital paulista com apenas 30 reais e a esperança de comprovar o nome do pai de seus dois filhos.

Concentradas num único local, essas pessoas revelaram e refletiram suas trajetórias de vida, as questões e os eventos que culminaram na adesão ao movimento que reivindica moradia e a decisão de ocupar o prédio abandonado. Moradia, Não Ocupação é um retrato humanizado das desigualdades sociais no Brasil que as estatísticas não cansam de mostrar.

Hoje sei que o prédio teve sua fachada lacrada com cimento para impedir novas invasões; alguns moradores aceitaram o apartamento popular financiado pelo governo que fica na periferia de São Paulo. Outros tantos não puderam aceitar a oferta: eram carroceiros e ambulantes que não tinham como atravessar a cidade para garantir o ganha-pão.

O livro ficou lá em 2007, talvez hoje em alguma estante da biblioteca da Universidade. Aqui relembro alguns antigos moradores do edifício...










[*] Publicado originalmente em Outras Fontes em 04 de junho de 2009.