domingo, 14 de junho de 2009

Lembranças do Prestes Maia

Havia pouco tempo que o último ato de resistência dos moradores do Edifício Prestes Maia, localizado na região central da cidade de São Paulo e então a maior ocupação vertical da América Latina, tinha chegado às manchetes de jornais quando nos foi passada as primeiras orientações sobre o projeto experimental de jornalismo literário. Naquela semana, 468 famílias foram ameaçadas de despejo, sem nenhuma alternativa de realocação.

Para a conclusão do curso de graduação, bacharelado em Comunicação Social/Jornalismo, deveríamos escrever nosso primeiro livro-reportagem. O passo a passo já era sabido: escolher um tema, definir a metodologia, redigir o projeto, apresentá-lo e botar a mão na massa. Marcamos, então, nossa primeira reunião de grupo. Cada um dos 12 componentes traria sua sugestão para, democraticamente, decidirmos o objeto de nosso estudo, tendo em mente um assunto que nos daria prazer em pesquisar e trabalhar nos próximos nove meses.

Temas como a famosa rua 25 de março, no centro da capital paulista, religiões e Budismo, a Assembléia Legislativa de São Paulo vista por aqueles que trabalham na sua manutenção, e outros que a memória não resgata estavam à mesa junto com o Edifício Prestes Maia ocupado desde 2002 pelo Movimento dos Moradores Sem Teto de São Paulo (MSTC).

Não por unanimidade, mas por maioria, definimos que a história recente do prédio tinha força e muito assunto para se transformar em um livro. Mas qual seria o foco? A busca por mais informações sobre esse tema evidenciou que, apesar de bastante citado, o edifício era reconhecido como a maior ocupação vertical da América Latina, mas as histórias das pessoas que nele moravam eram meros acessórios. Exceções concedidas aos líderes do movimento e aos idealizadores da biblioteca fundada no prédio a partir de doações e de livros coletados do lixo. Estava aí a nossa linha editorial.

Quem são essas pessoas que habitam um edifício abandonado, sem luz ou água encanada, povoado por ratos e baratas em meio a paredes úmidas, dividindo suas intimidades e compartilhando suas necessidades de forma precária e insalubre?

Essas pessoas vieram de vários lugares: da região periférica da cidade de São Paulo até do distante agreste nordestino. Algumas, inclusive, de países vizinhos, como a Bolívia. O principal motivo desta migração é a busca por trabalho, mas também o desejo de encontrar familiares e procura de tratamentos de saúde.

Cansados do entra-e-sai de jornalistas, videomakers, fotógrafos, pesquisadores e curiosos, alguns residentes foram contra nossa permanência no edifício. Mas novamente a maioria prevaleceu e nossa presença foi aceita numa assembléia de moradores que expôs os objetivos de nosso trabalho apresentado alguns dias antes a duas dirigentes do prédio.

Os meses que seguiram foram de incursões semanais aos dois blocos do edifício, um de 22 andares e outro de dez. Conversamos, entrevistamos e fotografamos sempre em busca de histórias de moradores que, ao mesmo tempo, representassem a de outros tantos personagens do prédio que não caberiam dentro do projeto pelo tempo e espaço disponíveis.

Apesar de terem sido aprovadas em assembléia, nossas visitas muitas vezes foram hostilizadas por moradores que nos consideravam curiosos da precariedade e miséria em que se encontravam. Mas, em tantas outras oportunidades, também fomos convidados a entrar em suas casas e partilhar da refeição. Ora uma narração intrigante, ora uma engraçada, as histórias variavam sempre entre a tristeza do passado e o temor e incerteza do futuro. Registramos em voz alta a resistência de alguns desses sentimentos.

Trajetórias de vida de moradores como a do boliviano Mário, ex-sapateiro e atualmente piloteiro de uma confecção no Bom Retiro: veio pela primeira vez ao Brasil para passar férias e ficou de vez. Dois anos depois, voltou à Bolívia, mas para trazer toda a família para São Paulo. Dona Edicena, que saiu de Minas Gerais atraída por um programa de TV que oferecia teste de DNA. Chegou à capital paulista com apenas 30 reais e a esperança de comprovar o nome do pai de seus dois filhos.

Concentradas num único local, essas pessoas revelaram e refletiram suas trajetórias de vida, as questões e os eventos que culminaram na adesão ao movimento que reivindica moradia e a decisão de ocupar o prédio abandonado. Moradia, Não Ocupação é um retrato humanizado das desigualdades sociais no Brasil que as estatísticas não cansam de mostrar.

Hoje sei que o prédio teve sua fachada lacrada com cimento para impedir novas invasões; alguns moradores aceitaram o apartamento popular financiado pelo governo que fica na periferia de São Paulo. Outros tantos não puderam aceitar a oferta: eram carroceiros e ambulantes que não tinham como atravessar a cidade para garantir o ganha-pão.

O livro ficou lá em 2007, talvez hoje em alguma estante da biblioteca da Universidade. Aqui relembro alguns antigos moradores do edifício...










[*] Publicado originalmente em Outras Fontes em 04 de junho de 2009.

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